Corinthians S/A: a segunda revolução da história do futebol brasileiro

Desde o início de sua história, o Corinthians sempre teve um quê de liderança, de pioneirismo... de vanguarda.

Surgimos em 1910 para mudar a cara do futebol paulista. Fomos o primeiro clube essencialmente popular a surgir, numa época em que apenas a elite podia jogar... época onde reinavam São Paulo Athletic Club, Mackenzie, Germânia e Paulistano.

Ultrapassamos todos em questão de três anos, causando inclusive a divisão do Campeonato Paulista e tornando-se a maior força do Estado.

Poucos juntam os fatos, mas sem esse movimento de popularização do futebol, liderado pelo Corinthians, dificilmente o futebol seria unanimidade como é no Brasil. Pois o Rio só nos ultrapassou como força estadual pois era a capital do País, e ainda precisou de uma forcinha do governo e da mídia pra conseguir mais torcedores nos redutos do Norte e Nordeste...

Mas enfim... tudo começou aqui, para depois se expandir para o resto do país... quantas Copas do Mundo teríamos se a História tivesse sido diferente??

Eu pensava que não poderia haver legado maior do que esse. Mas essa semana, fui surpreendido. Nunca diga nunca, sempre ouvi isso mas é difícil levar a sério.

Essa semana todos devem ter lido a declaração do conselheiro Waldir Pires, de que o Corinthians planeja abrir o capital na Bolsa de São Paulo. Se não viu, veja aqui.

Não entendeu? Então vamos lá: a ideia é que o Corinthians faça uma IPO (sigla para Oferta Pública Inicial, em inglês) de ações na Bovespa.

Continua não entendendo?

Bom, antes de tudo, só pra começar: apenas empresas muuuuuuito fodas têm o capital aberto. E é pra "marcar" o início de uma abertura de capital que a IPO existe.

Uma Oferta Pública Inicial é o evento que marca a primeira venda de ações de uma empresa no mercado. Assim, através de papéis que dão ao comprador uma pequena parte da empresa, esta pode usar o dinheiro captado para, por exemplo, pagar dívidas, expandir a marca e realizar novos investimentos.

Como funciona?

Antes de tudo, o clube teria de fazer uma profunda análise de sua estrutura e da qualidade de suas contas; também teria que fazer adaptações ao Estatuto e tomar outras providências legais, para enfim entrar em contato com as instituições financeiras especialistas.

Só isso já seria um bem enorme para o Corinthians, pois até chegarmos nesse ponto teríamos feito uma auditoria completa, mais profunda do que a que fazemos na prestação de contas, e realizado uma bela remodelação na estrutura social, tornando o clube mais rentável e organizado.

Depois disso, o clube redigiria um Prospecto de Emissão, que é um documento onde é divulgado todas as informações relevantes sobre a empresa emissora (no caso o Corinthians). Ainda nesse documento estão um resumo da situação financeira da empresa e da operação de abertura de capital. Isso serve para que todos saibam qual é a real situação do clube, quais são os eventuais riscos que se corre e qual é o retorno que o clube oferece.

Com isso e mais uma porrada de documentos na mão, procura-se a Comissão de Valores Mobilários, o órgão que regula o mercado financeiro brasileiro. Lá, o clube faria o registro da operação financeira. Somente com a aprovação da CVM a abertura de capital é possível.

Aprovada a abertura de capital, parte-se para o registro na Bovespa, onde ocorre todo o processo de divulgação da abertura, aviso aos investidores e reserva de ações.

Um dia antes da abertura, é divulgado ao mercado quanto será o valor da ação e quanto será ofertado na Bolsa, se 10% do total de ações, 25%... a menos que o clube oferte 50% ou mais, ele NÃO PERDE o controle sobre a administração.

Mas quanto o Corinthians ganharia?

Depende. Na análise do pedido de abertura de capital, o que mais se considera são o patrimônio da empresa, suas dívidas e sua capacidade de pagar todos os investidores que quiserem vender suas ações.

Pra ser ter uma ideia, em 2003 o Coritiba deu entrada no pedido de abertura de capital, propondo vender R$ 51 milhões, mas a CVM negou o registro pois argumentou que o clube não tinha como oferecer todas as garantias aos investidores. Nunca mais se tentou de novo.

Na Europa, a mais recente tentativa de realizar uma IPO, pelo Manchester United, renderia mais ou menos US$ 383 milhões (R$ 755 milhões). Esse processo está em andamento.

Considerando que o Corinthians abrisse na Bolsa os mesmos 10% de patrimônio que o Manchester quer, isso renderia mais ou menos R$ 160 milhões. Pois nossa marca vale R$ 1 bilhão, e teremos com a construção da Arena (imagem) uns R$ 700 milhões de patrimônio físico (além da Arena tem o CT, a sede social), menos uns R$ 150 milhões de dívidas. Isso a grosso modo, claro.

Se esse montante for dividido em 10 milhões de ações, por exemplo, é possível imaginar cada ação do Corinthians sendo vendida a 16 reais... um valor bem atrativo, não?

Mas se é barato fica mais fácil de um sheik ou um bilionário russo vir e comprar o Corinthians... o Corinthians não tem dono!!! É o time do povo!!! Isso não pode!!!

Calma, não é bem assim. É só não vender mais do que 50% +1 das ações. Aliás, no caso do Corinthians, o mais provável mesmo é que milhares de torcedores corram até corretoras para conseguir comprar uns lotes... até o tal sheik chegar aqui não vai ter ação pra vender!

A abertura de capital ainda tem outras vantagens: a transparência, que é obrigatória em uma empresa de capital aberto... nunca mais o Corinthians voltaria a ter uma diretoria corrupta como a da era Dualib; a libertação financeira, pois nunca mais os empréstimos com bancos (a altos juros) seriam necessários; a GARANTIA de que não só temos estrutura como ela é melhor do Brasil, pois nos garante ter ações na Bolsa... seria o maior tapa na cara possível dos antis; e para nós, torcedores, seria a melhor ferramenta de controle e fiscalização que poderíamos ter... ao invés de cobrar o clube nas redes sociais, teríamos a liberdade de cobrar pessoalmente, pois bastaria ver se as ações sobem ou descem pra ver a situação real do time.

Sem falar no melhor de tudo: hoje, penso que somos o único time no Brasil capaz de realizar uma IPO... afinal o São Paulo vale R$ 400 milhões a menos que a gente, mas tem um patrimônio remendado por reformas e reformas... e o Flamengo, bem... vale R$ 800 milhões mas deve pra Deus e o mundo... se não paga os jogadores vai oferecer que garantias aos acionistas??

Agora pense, torcedor: o que o Corinthians não poderia fazer dentro de campo, nos 3 ou 4 anos em que seria o ÚNICO TIME de capital aberto do Brasil? Quantos jogadores não se sentiriam mais seguros pra vir jogar aqui, se pudéssemos oferecer esse tipo de garantia???

A possível abertura de capital do Corinthians seria o início da segunda revolução do futebol brasileiro: se a primeira foi a popularização do esporte, a segunda será a total profissionalização dos seus clubes e gestores. E a transformação dos mesmos em empresas de capital aberto é o símbolo disso.

Seria o último passo que o Timão daria pra entrar de vez numa nova era do futebol; não tão bonita, mas que já é realidade na Europa; onde não há amadores, mas somente profissionais; nessa era, o Time do Povo estaria nas mãos de alguns... o capitalismo e o "business" falariam mais alto que a paixão do dirigente-torcedor, e o futebol não mais seria jogado por amor, mas por grana. Simples assim.

Tudo o que vemos hoje seria uma lenda, contada com nostalgia e emoção por nós, aos nossos filhos e netos.

É triste mesmo, mas necessário. Pois não se paga atleta de alto nível com amor.

De consolo, poderemos dizer que fomos a última geração que viveu essa realidade. Então vamos aproveitar... cornetar menos e torcer mais... antes que seja tarde!!!

Hoje é contra o Vasco! Vai Corinthians!!!

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