Como entender o insulto de Roberto de Andrade à Democracia?

Roberto de Andrade fala à imprensa, tendo ao lado o Troféu Sócrates, que homenageia um dos representantes da Democracia desprezada pelo presidente
O Corinthians tem 105 anos de uma rica história, no futebol e fora dele. Somos reconhecidos por ser um clube de massas, talvez o primeiro essencialmente popular a surgir em São Paulo. Foi no Corinthians que a classe operária pôde reivindicar seu espaço no incipiente mundo do futebol, lutando de igual pra igual com a elite paulistana.

Qualquer corinthiano que tenha um mínimo de interesse pela história de seu clube (e todos deviam ser assim) sabe que somos muito mais que um clube de futebol. O Corinthians tem uma função social fundamental no Brasil, pois é o time das massas, que representa a superação pelo trabalho, o esforço desmedido, a busca incessante pela vitória justa. Ao longo dos anos, décadas, ficou claro o engajamento político-social da instituição e de sua torcida, desde o processo de democratização do futebol paulista, nas décadas de 1910 e 1920, até movimentos como a Democracia Corinthiana, nos anos 1980 - que gerou desdobramentos fabulosos, dentro e fora de campo, culminando com a participação de atletas corinthianos nas Diretas Já, que lutava pela redemocratização política do Brasil.

Negar a importância de tais movimentos, ou desprezar a relevância de uma simples parte dessa história, da qual tanto nos orgulhamos, é um grave ato falho. Nossa torcida sempre se caracterizou por ser conhecedora de seu passado, e de valorizá-lo em suas ações, cantos, gritos. É a nossa cara, nossa identidade. É o que nos faz ser diferentes dos demais!

Roberto de Andrade, Romário e Eurico na CPI do Futebol
O que dizer, então, se esse ato falho vem de cima? De alguém que deveria representa a Nação Corinthiana com o máximo de zelo e dedicação?

Como imaginar que, um dia, um presidente do Sport Club Corinthians Paulista teria coragem de, publicamente, afirmar que a Democracia Corinthians não trouxe nada de bom ao clube???

Só que infelizmente, isso ocorreu. Foi hoje, em depoimento à CPI do Futebol, em Brasília. Sentado ao lado do senador Romário, e acompanhado pelo presidente do Vasco, Eurico Miranda (um dos dirigentes mais nefastos do nosso futebol), Roberto de Andrade não teve a menor vergonha em afirmar, com todas as letras:

"Aquilo (Democracia Corintiana) pouco contribuiu ao clube. Foi um ato dos atletas, que não trouxe benefício algum. Chamou a atenção da mídia porque não tinha concentração e se ouvia dois, três jogadores, que mandavam no elenco. Ficou cravado como ato fora de série, mas não entendo assim. Ao clube, trouxe muito pouco benefício"

Tentei relativizar a declaração de todas as formas possíveis. Mas o nosso presidente não deu margens à interpretação, ele disse exatamente o que pensava. E isso é algo terrível, pois significa que o Corinthians é, hoje, guiado por um cidadão que não respeita a história do clube - pior ainda, que a diminui a níveis imperdoáveis.

Se algum corinthiano tem dúvidas do quão relevante foi a Democracia Corinthiana, recomendo que assista a esse documentário de 24 minutos, chamado "Ser Campeão É Um Detalhe - Democracia Corinthiana". Estou pensando em enviar o link para o presidente, também...


Vendo esse video, me peguei pensando se nossos dirigentes e conselheiros têm algo dizer dessa declaração. Será que concordam com esse absurdo? Cobrarão uma retratação do presidente, ou deixarão o assunto ser esquecido? É possível remediar um insulto tão grande à nossa história?

É absurdo negar que a Democracia Corinthians foi um processo inédito e revolucionário de autogestão no futebol, acima de tudo extremamente corajoso, dada a popularidade do Corinthians e a época em que ocorreu (fim da ditadura militar).

É intolerável desprezar que a Democracia Corinthiana escancarou a milhões de pessoas o quão urgente era a redemocratização da politica brasileira, usando do futebol para engajar milhões de torcedores a lutarem pelo fim do regime militar.

É imperdoável transformar a Democracia Corinthiana em um mero "ato de atletas", acima de tudo, em respeito à memória de craques corinthianos como Casagrande e, especialmente, doutor Sócrates. Ídolos que inspiraram uma geração inteira a sonhar com um Brasil melhor e mais justo.

Em meio a tantas certezas, surge apenas uma dúvida: ainda há motivos para respeitar Roberto de Andrade como presidente do Corinthians? 


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