Não, Dani Alves, a culpa não é da crise política. A culpa é de vocês!


Enquanto escrevo esse post, o Brasil vai jogado contra a Venezuela - e por ora está vencendo. Mas o assunto, aqui, não é essa partida, e sim algo que ocorreu um pouco mais cedo.

Quem quer ser jornalista, como eu, tem que ler jornal - nem que seja só uma olhada nas manchetes, E vendo os jornais hoje, vi uma matéria que me chamou a atenção, pelo inusitado da coisa. Saiu em vários portais, cada um focando em um ponto específico.

Leia a matéria completa nesse link
A matéria fala de declarações do lateral Dani Alves, do Barcelona. Em resumo, ele praticamente isenta a Seleção de responsabilidade pela resistência que o grupo vem encontrando na torcida.

Explica-se: segundo o lateral, a insatisfação dos torcedores com a Seleção não é exatamente culpa deles, jogadores, mas sim - pasmem - da crise política. Sim, você leu direito: para ele, a Seleção "paga o pato" pela revolta dos torcedores com o país (!!!). Um trecho que bem ilustra a fala do cidadão é esse:

"O brasileiro está tão revoltado com certas coisas, que todos nós acabamos pagando. Somos a linha de frente dos disparos porque estamos vestindo essa camisa. Ficamos à mercê de tudo isso”

Alguns profissionais da imprensa já rebateram o jogador, como por exemplo o comentarista do SporTV, Marco Antonio Rodrigues (veja nesse link). Além disso, eu sei que esse é um blog corinthiano. Apesar disso, não pude deixar de passar aqui pra comentar a matéria. Afinal de contas, não é todo dia que se vê um jogador de seleção tão distante da realidade.

Em primeiro lugar, chama a atenção constatar que os jogadores da Seleção ainda a achem tão fundamental assim na vida do brasileiro. Não que não exista mais ninguém que apoie a Seleção, pelo contrário. Mas não dá pra negar que os fracassos recentes, aliados à crise institucional pela qual FIFA, CBF e federações vêm passando, há tempos tirou dos olhos do cidadão comum aquele brilho de ver o Brasil jogar. Exemplo disso foi a última Copa do Mundo, que mesmo sendo no Brasil não gerou no torcedor a mesma comoção de outras edições...

A torcida por clubes estrangeiros é cada vez maior no país
Outras coisas só ajudaram a afastar mais ainda o torcedor, como a quantidade cada vez maior de partidas do Brasil jogadas na Europa e EUA; a pobre presença de jogadores do futebol brasileiro no time considerado "titular"; o avanço cada vez maior do futebol internacional no imaginário do torcedor, especialmente no que se refere à torcida por clubes.

Tudo isso, entre outras coisas mais, vem minando aos poucos o processo de identificação da torcida com a seleção do Brasil. É algo histórico, que não vem de hoje, mas mesmo assim é algo tão gritante que fica difícil de ser ignorado, especialmente por um atleta que é convocado regularmente há algum tempo.

Também foi interessante perceber a facilidade com que Dani Alves tentou eximir a Seleção de suas responsabilidades. Como se o 7x1 não tivesse, REALMENTE, sido o bastante. Aliás, parece que não foi mesmo, haja vista a humilhação sofrida em seguida para a Holanda, ainda na Copa do Mundo... a eliminação na Copa América, a derrota para o Chile nas Eliminatórias. Será mesmo que os jogadores pensam que essa terrível sequência não causa nenhum impacto no modo como a torcida vê e apoia a Seleção Brasileira?

Por fim, chamo a atenção para o estado crítico de megalomania - e um pouco de pretensão excessiva - do jogador, por acreditar que um dos reflexos da crise política que vivemos é a "perda de apoio da Seleção" por parte da torcida. Sério mesmo, Dani Alves? De verdade?

Eventualmente, a política pode influenciar o futebol, sim. Negar isso seria ingenuidade. Mas é uma associação delicada, e um pouco relativa - especialmente porque tem uma coisa que influencia mais nesse apoio do que a situação econômica do país. Sabem o que é? A própria Seleção, oras!

2002: temor na política e penta no campo
Em 2002, o Brasil vivia um momento muito conturbado, na política e economia. Era ano de eleições presidenciais, e o petista Luis Inácio Lula da Silva despontava como favorito. Isso deixou os mercados em pé de guerra: a inflação subiu sem controle, o dólar quase bateu em R$ 4 e o risco-Brasil bateu seguidos recordes negativos. A sensação é de que o país não resistiria a uma vitória de Lula nas eleições.

Nesse mesmo ano, alheio a tudo isso, o Brasil de Luis Felipe Scolari disputou e venceu a Copa do Mundo da Coreia do Sul e Japão, conquistando o pentacampeonato. O pentacampeonato veio, aliás, com enorme apoio popular, mesmo após um 2001 péssimo do Brasil em campo e um 2002 cheio de desconfianças na política e economia.

2005: Mensalão não impede mais um título da Seleção
E 2005, então? Foi o ano em que o escândalo do Mensalão estourou em Brasília, iniciando grave crise política. Vários membros do governo foram denunciados, como José Dirceu e José Genoino, e muitos acabariam julgados e presos. Depois de muitos anos, o povo foi às ruas protestar, e o impeachment ameaçou (e muito) o presidente Lula. Foram tempos difíceis!

Enquanto isso, o Brasil estava na Alemanha, disputando a Copa das Confederações. E a crise política não afetou a equipe, que passou por seleções como México e Alemanha para chegar à final, onde destroçou a Argentina com um sonoro 4x1. Resultado: Brasil bicampeão, e um dos favoritos à Copa-2006.

2013: o gigante acordou e foi ver o jogo do Brasil

E o que dizer de 2013? Os protestos de junho - originados por aqueles R$ 0,20, lembram? - estavam no seu ponto máximo. "O gigante acordou", diziam nas ruas. Centenas de milhares pararam por vários domingos as grandes cidades do Brasil. Prometia-se que "não haveria Copa", inclusive!

Mas não só teve Copa em 2014 como teve, antes disso, a Copa das Confederações, vencida - vejam só - pelo Brasil! O desempenho em campo, especialmente aquele 3x0 em cima da Espanha, na final, nos colocou como favoritos ao hexa, pra muita gente. Não para mim, essa Seleção nunca me enganou!

Esses três exemplos simples e recentes mostram que a Seleção Brasileira não depende, e nunca dependeu, de um clima político favorável para ser vitoriosa e contar com o apoio da torcida. Por mais que tanto o futebol quanto a política gerem mais reações emocionais do que racionais. cada qual tem sua influência no torcedor, e este sabe, sim, separar um do outro.

Penso, então, que atletas como o Dani Alves deviam começar a fazer o mesmo e separar as coisas. Uma seleção que venceu somente dois dos últimos sete jogos oficiais, levando nada menos que 16 gols nesse período, definitivamente devia começar a pensar mais em seu desempenho do que em ficar encontrando desculpas para não ter que admitir o óbvio: que perderam o apoio da torcida graças à falta de empenho em campo. É simples.

Entendo que seja tentador usar a crise política para camuflar os próprios erros, mas esse não é o caminho. Afinal, as Eliminatórias são duras, e nem sempre haverá uma Venezuela para aliviar a pressão!

Vai jogar bola, Dani Alves.


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