E se a Liga das Américas fosse igual à UEFA Champions League?

Muito tem se falado sobre a criação da Liga das Américas. Não é exatamente uma ideia nova; muito já se falou, no passado, sobre criar um torneio que envolvesse times da CONMEBOL e da CONCACAF.

No entanto, o máximo que se conseguiu foi a disputa da Copa Interamericana, que teve 18 edições entre 1968 e 1998 e nunca foi vencida por um brasileiro - somente o Vasco a disputou, perdendo para o DC United (EUA) na última edição.

Nos últimos anos, alguns fatores têm levado uma quantidade cada vez maior de torcedores defender a criação de um campeonato unificado, que envolva times dos três continentes. Entre eles está uma diminuição do nível técnico das últimas edições da Libertadores, a baixa premiação que a CONMEBOL oferece aos times participantes, e o crescimento técnico e financeiro da MLS, a liga de futebol norteamericana.
Riccardo Silva, o homem por trás da ACL

E foi pensando no potencial financeiro que um torneio envolvendo brasileiros e americanos poderia ter, que um projeto em especial vem ganhando cada vez mais força na mídia: a chamada America's Champions League, ou ACL, ou simplesmente Liga dos Campeões das Américas - chamem como acharem melhor!

A proposta é do empresário Riccardo Silva, através de sua empresa, a MP&Silva. Eles são conhecidos no mercado da bola: o italiano é dono do Miami FC (time que disputa a NASL, a "segunda divisão" dos EUA) e sua empresa detém os direitos de transmissão de mais de 50 franquias esportivas, incluindo La Liga, Bundesliga, Barclays Premier League e a Copa do Mundo de seleções.

A promessa? Um torneio com 64 times (sendo 16 do Brasil), disputado inteiramente no formato mata-mata, com final em jogo único. O atrativo? US$ 5 milhões (R$ 18 mi) a cada clube somente pela participação - e nada menos que US$ 30 milhões (R$ 105 mi) ao campeão. Interessante, né?

Mas nem tudo são flores no projeto. As críticas são diversas, mas dá pra resumir em alguns pontos:

1 - Falta de apoio das confederações: CONMEBOL e CONCACAF não deram seu aval à Liga, e pelo que se sabe sequer foram procuradas pelo empresário, que tem entrado em contato diretamente com os clubes para viabilizar o torneio. Essa postura teria causado inclusive um certo mal estar nas entidades máximas do continente;

2 - Calendário: os times mal têm datas livres para disputar um amistoso, como então seria possível disputar, em alto nível, um torneio continental onde o campeão certamente faria mais de 10 jogos, muitos deles podendo envolver viagens transcontinentais?

3 - Credibilidade: uma Liga das Américas sem o aval das entidades, e convivendo com Libertadores e Concachampions teria sérios problemas de credibilidade. Isso pois a Liga não teria o que oferecer aos campeões a não ser dinheiro. Vaga para o Mundial? Impossível.

4 - Falta de representatividade: a Liga planejada por Silva prevê que metade dos 64 times sejam de Brasil e EUA, destruindo o senso de representatividade que um torneio como esse deveria ter por obrigação.

Pensando nisso tudo, comecei a imaginar um campeonato que fosse viável, e atrativo a todos TAMBÉM pela disputa, e não só pelo dinheiro. Afinal, priorizar o negócio em detrimento da disputa nem sempre é a melhor opção, especialmente para as próprias marcas patrocinadoras.

Antes de continuar, porém, aviso a você, leitor: a explicação de como eu, Daniel, faria essa liga, é longa e detalhada. Recomendo fortemente que a leitura seja feita com calma e atenção!

Como seria a minha Liga das Américas

Para chegar a um formato de competição realmente interessante, preciso antes explicar alguns princípios que acredito serem fundamentais à criação de um torneio com esse porte. São eles:

1 - Protagonismo continental: a Liga das Américas TERIA que ser o principal torneio continental em disputa pelos clubes. Isso significa que tanto a Copa Libertadores quando a Concachampions teriam seus status rebaixados, ou seriam extintas. Copa Sulamericana? Esquece. É a única forma de viabilizar datas oficiais para a disputa do torneio.

2 - Disputa de fevereiro a novembro: algo que o torneio de Silva já propõe, e que eu concordo. É um modo de contornar as dificuldades logísticas que um time paulista, teria ao enfrentar uma equipe do Canadá, por exemplo.

3 - Fases qualificatórias: uma Liga das Américas teria, na minha opinião, que contar com a participação de, no mínimo, todos os campeões nacionais dos continentes. Para nivelar tecnicamente, teria que haver fases qualificatórias, evitando assim que uma equipe das Bahamas, por exemplo, já tivesse que enfrentar logo na primeira fase um argentino - e levasse goleadas humilhantes.

Existe um torneio que é protagonista em seu continente. é disputado durante quase toda a temporada e conta com todos os campeões nacionais de seus países-membros: a Liga dos Campeões da UEFA. Mas, o que deveria ser feito para reproduzir o formato da maior competição de clubes do mundo aqui, nas Américas?

Antes de tudo, vamos entender como a UEFA Champions League funciona, usando a edição atual (2015-16) como exemplo:

Participam um total de 77 equipes, de 53 das 54 federações da UEFA (a exceção é Liechtenstein , que não tem campeonato nacional). A divisão de vagas respeita um ranking que mede o desempenho dos clubes de cada país nas últimas cinco edições no torneio - é o chamado coeficiente. Quanto maior o coeficiente, mais vagas o país recebe. Na atual edição, por exemplo, três países ganharam quatro vagas cada: Espanha, Inglaterra e Alemanha. Confira abaixo a relação total (tabela extraída do Wikipedia):
A partir disso, os clubes participantes são divididos em grupos (ou "potes"). Com base em seus próprios coeficientes individuais, 22 times são classificados diretamente à fase de grupos, enquanto os outros 55 disputam as 10 vagas restantes em playoffs (disputas mata-mata). Esses playoffs são divididos em quatro etapas:

1ª Fase de Qualificação: os oito times com menor coeficiente disputam quatro vagas na fase seguinte;
2ª Fase de Qualificação: participam 30 times mais os quatro classificados da 1ª fase (total de 34). Os vencedores dos 17 confrontos passam à fase seguinte;
3º Fase de Qualificação: participam 13 times mais os 17 classificados da 2ª fase (total de 30). Os 15 confrontos são divididos em dois grupos: Caminho dos Campeões (10 jogos) e Caminho dos Não-Campeões (5 jogos). Os vencedores passam aos Playoffs.
Playoffs: participam cinco times mais os 15 classificados da 3ª fase (total de 20). Os 10 confrontos também são divididos em dois grupos: Caminho dos Campeões (5 jogos) e Caminho dos Não-Campeões (5 jogos). Os vencedores se classificam à Fase de Grupos da Liga dos Campeões.

Parece confuso, mas não é. Seria difícil fazer isso aqui? Sim, mas não impossível: basta ir por partes.

1ª Parte: criando o Ranking de Coeficientes das Américas

A UEFA considera, no cálculo dos coeficientes, o desempenho das equipes nas últimas cinco edições de seus dois torneios, Liga dos Campeões e Liga Europa. Trazendo esse conceito para cá, teríamos que considerar quatro torneios: Copa Libertadores, Copa Sulamericana, Liga dos Campeões da Concacaf e Campeonato de Clubes do Caribe.

Algumas adaptações teriam que ser feitas, afinal esses quatro torneios têm fórmulas muito diferentes. Para nivelar, eu só pontuaria os times que chegassem às oitavas-de-final (ou ficassem entre os 16 melhores) de cada edição - diferente do que a UEFA faz, que é pontuar toda a participação dos clubes, desde a 1ª Fase de Qualificação.

Além disso, seria necessário, aqui, diferenciar os pontos dados para cada torneio. Ninguém nega que a Libertadores possui um nível técnico maior que a Concachampions, e que a Copa Sulamericana é melhor que a Copa do Caribe. Também acho importante valorizar os times que chegam às fases finais. Sendo assim, cheguei à seguinte tabela de pontuação:
Considerando essa tabela, chegamos a duas listas, como se fossem dois rankings. Um deles tem 73 times sulamericanos, listados pelo desempenho nas últimas cinco edições da Libertadores e da Sulamericana (exceto a desse ano, que ainda está na semifinal). A outra tem 84 times das Américas do Norte, Central e do Caribe, e estão listados pelo desempenho nas últimas cinco edições da Concachampions e da Copa do Caribe (mais Libertadores, para os times mexicanos).

As listas completas você pode ver NESSE LINK (só clicar na imagem para ampliar), mas abaixo eu listo os 15 primeiros de cada ranking:
Mas não é esse "ranking" que importa, e sim o NACIONAL, ou seja: o índice que cada país consegue, ao se somar os pontos de todos seus times. Exemplo: o Brasil tem 22 times no ranking, que somaram ao todo 426 pontos. Uma média de 19,363 pontos por time. Fiz isso com todos os países, e chegamos à seguinte tabela:
Falta apenas uma coisa, que não existe no coeficiente da UEFA mas que achei necessário para o das Américas: nivelar o índice de acordo com a competitividade dos clubes de cada país. Explico: o peso que clubes brasileiros têm na CONMEBOL é muito maior que o peso dos canadenses na CONCACAF, por exemplo. Isso pois a nossa liga é muito mais equilibrada, o que leva mais clubes para os torneios continentais (22 ao todo) do que no caso dos canadenses (apenas 2 times presentes na Concachampions, em cinco anos). O resultado disso é que a diversidade brasileira derruba nossa média, enquanto que a canadense é elevada pela falta de mais clubes com participações internacionais.

Criei um "fator de correção" que usa o Ranking de Seleções da FIFA, e escolhi esse critério pois o ranking da FIFA é o único que conheço, oficial, que avalia ao mesmo tempo os países da CONMEBOL e CONCACAF. É um critério uniforme, e por isso, justo.

A correção foi feita da seguinte forma: os 45 países das Américas foram listados segundo sua posição no ranking da FIFA de novembro/2015. O "fator de correção" máximo é 1,000 - índice que foi dividido por 45 (o número de países). O resultado (0,0222) foi multiplicado pela posição invertida do país no ranking. Exemplos: Argentina: 0,0222 x 45 = 1,000 e Chile: 0,0222 x 44 = 0,978.

Achei prudente, porém, estabelecer um piso (valor mínimo) para esse fator, que estipulei em 1/3 do valor total, ou 0,333. Aplicando na tabela acima, chegamos ao seguinte resultado:
É MUITO IMPORTANTE ressaltar que esse ranking seria atualizado em duas frentes: mês a mês, conforme as variações de posição dos países no ranking da FIFA; e no fim da temporada, para distribuir os pontos aos clubes, de acordo com seu desempenho em cada edição da Liga.

2ª parte: Distribuindo as vagas para os países

Na Liga dos Campeões, a UEFA distribui 77 vagas entre 53 países. A "minha" Liga das Américas teria 78 vagas, sendo distribuídas entre 46 países. A distribuição ficaria da seguinte forma:
Aí na tabela estão distribuídas 77 vagas. A vaga restante seria destinada ao último campeão da Liga - no caso da primeira edição, essa vaga seria cedida ao país com melhor coeficiente, no caso a Argentina - que teria cinco vagas.

3ª parte: Definindo a fórmula de disputa

Existe uma enorme diferença técnica entre os países das Américas. Logo, não seria possível inserir todos na mesma fase da disputa. A mesma coisa ocorre na Europa, e por isso a Liga dos Campeões da UEFA tem fases de qualificação.

Na "minha" fórmula para a Liga das Américas, a divisão seria a mesma que é feita na Europa pela UEFA: 22 vagas diretas para a fase de grupos e 10 vagas disputadas via Playoffs, por 56 times. A divisão por fase seria a seguinte:
E se tivesse ocorrido esse ano, como seria?

Como eu não tenho medo de desafios (rsrs), fiz uma simulação de como poderiam ficar os confrontos caso a Liga das Américas existisse esse ano, no formato que acabei de explicar. Peguei os campeões nacionais de todas as Américas em 2014 e fui sorteando! Dá uma olhada, primeiro, em como ficaram os confrontos mata-mata, com prováveis vencedores indicados fase a fase, até chegarmos aos 10 "classificados":
Os 10 times vencedores dos Playoffs se juntariam aos 22 pré-classificados, totalizando os 32 times da Fase de Grupos. Na tabela abaixo, vocês podem conferir como eles seriam divididos nos potes, de acordo com a pontuação de cada time no ranking de coeficientes (lembram dele?). Deem uma olhada:
A partir daí, é uma questão de imaginar os grupos possíveis. Claro que haveria um direcionamento, para evitar que um grupo tenha três times do mesmo país, por exemplo. Mas mesmo assim, os times brasileiros poderiam ter grandes problemas! Imaginem que seria um possível um grupo com América (MEX), Los Angeles Galaxy (EUA), Corinthians e Saprissa (CRC). Três longas viagens, para jogos imprevisíveis. Não seria vida fácil!

Considerações finais

Depois de dois dias de pesquisa e redação, o que se pode concluir é que é viável SIM criar uma Liga das Américas séria, de verdade, nos moldes da que existe na Europa. Seria um torneio altamente competitivo, reservado somente aos melhores DE FATO, mas ao mesmo tempo extremamente democrático: notem que, mesmo após quatro fases de mata-mata, ainda chegamos à fase de grupos com nada menos que 17 países sendo representados. Curiosamente, a edição desse ano da UEFA Champions League tem times de exatos 17 países na fase de grupos...

A existência de um torneio desse porte, porém, esbarraria em um obstáculo bem íntimo da nossa região: o zelo excessivo pelo "tradicionalismo". O medo de se reinventar faz a CONMEBOL manter posturas arcaicas no trato do futebol sulamericano, enquanto que na CONCACAF faltam elementos para tornar suas competições mais atrativas. Por mais que as duas confederações saibam, ou imaginem, que poderiam ser muito mais fortes caso se unissem, preferem manter o status quo para não perder influência no jogo político que rodeia o mundo da bola. E quem perde com isso, certamente, são os clubes.

Só sei que, sem o aval das confederações, fica difícil imaginar a Liga das Américas saindo do papel. E isso é uma pena, pois seria um torneio apaixonante - muito melhor do que seu irmão mais velho da Europa!

O que achou? Mudaria alguma coisa no formato? Deixe sua ideia nos comentários!

7 comentários:

  1. Muito bom esse molde! Agora como os 22 pré-classificados, se classificava nos Nacionais?

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    1. Olá amigo! Isso mesmo, seriam os 22 times que estão ali na última parte da tabela sobre os participantes. Seriam: campeão e vice de Brasil, Paraguai, Chile, Costa Rica, México e Argentina, mais os campeões de Haiti, Guatemala, Peru, Bolívia, EUA, Equador, Canadá, Uruguai, Colômbia e Trinidad & Tobago. Isso sempre considerando os rankings e coeficientes que expliquei antes, ou seja, haveria mudanças nessa distribuição conforme os anos fossem passando... como acontece na Europa. Obrigado pelo comentário, abraço!

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  2. Caso o campeão da ultima edição esteja entre os classificados pela sua liga nacional(vamos supor que seja um brasileiro), a vaga na terceira fase de qualificação seria cedida ao quinto colocado do brasileirão ?

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    1. Provavelmente sim, Gabriel. Ou se daria às federações o direito de escolher uma das vagas em um torneio seletivo... seria uma forma até de ganhar mais apoios dos cartolas. Obrigado pela pergunta!

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  3. o correto mesmo é a FIFA padronizar tudo...para começar os torneios deveriam ir de setembro a maio, seria bem mais interessante

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  4. O campeão das copas nacionais como a copa do brasil não teriam vagas ?

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    1. Brandon, essa liga não abordaria os campeões das Copas nacionais. Talvez a solução para isso seria outro torneio, todo em mata-mata, que fosse realizado em paralelo com essa liga. Algo como a antiga Copa da UEFA, lembra?

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